sábado, 2 de novembro de 2013

A primeira ida de João à biblioteca

a João Almeida, com profunda amizade.

Ir à biblioteca é o acto de conformidade do amor. É  partilha do nervoso de levar o que não é nosso.  É bonito leres livros que estiveram na mão de outras pessoas, o suor está lá encrostado, quiçá umas lágrimas ou mesmo uma mancha de vinho. É o amor a escorrer por cada página esquecida na fria sala de olhares pendentes! Uma acção verbal ténue.

Óbidos, 3 | XI | 2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Prelúdio a uma amor proíbido


Na noite perscrutada persegues-me! Os acordes evocam uma presença sublime,
Um odor intenso ao movimento do amor. Uma leve brisa desliza pelo ar, como uma dança ligeira,
Preparam-se as poções, tudo toma o seu caminho, chega a noite, doce brisa indecifrável, abençoo-a, chegou a hora da última consonância, o leve respirar de uma nova vida, a doce magia de um sorriso.
Humanidade feliz, sorriso louvado! Paz.

Óbidos, 30 | X | 2013

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Haiku
para a Rita

Cascata azul
natureza mágica
vida e sonho.

Mar

Vejo os nossos projectos esquecidos.
O pó circunscreve-os e
nós parados em tascas a
beber vinho tinto barato
(um cartuxinho)
enquanto a chuva limpa
o sangue das ruas e
os barcos cadavéricos
se alimentam das ervas
secas de Outono.

Entre a sujidade dos copos
um corpo queda-se.
Gibraltar ficou para trás
há dias, e o mar
permanece frio e negro,
é um corvo que me fita
entre a floresta alta
e lúgubre
dilacerando o cadáver,
astuto, altivo,
negro azedume.

Não sei o que me diagnosticaram,
sei apenas que estou preso em casa
esse espaço mítico onde os sonhos
habitam paredes-meias com o sexo
resplandecente da madrugada.
Morrerei em breve,
de mim nada restará,
nem uma leve brisa
mergulhada nas encostas sombrias
das serras, estarei no vinho
e em ti
no sexo e no mundo
preso por versos
inacabados.

Évora, 4\XI\11

quinta-feira, 6 de junho de 2013


Conteúdo
para a Sandra

Nas comunidades costumávamos
escrever palavras sábias como
prendas ou outras que não me lembro
e andávamos de baloiço
no outono,
e ficávamos em casa quando chovia,
à janela a vê-la cair no chão
repetidamente.

Vivi assim anos,
fugi e corri,
escrevi, sobretudo
coisas que não defino,
porventura apaguei-as do
meu universo,
mas escrevi-as como
vejo a árvore.

Repetidamente
à janela via-a cair no chão,
e ficámos em casa quando choveu,
no outono,
coisas destas que se dizem
a pessoas com sorriso
bonito
a quem se escrevem
longos poemas
a falar da existência,
sem forma nem conteúdo,
poemas de vida.

Évora, 17\XI\11

São tantas as palavras

São


                                                                                                                    parecemos




                                   extintos.


Tantas



que



as


                                                                                                                             seres






                                                             Palavras



que
                    pequenos





                                                                                                           Domésticos

ocupam

o


Universo,







Évora, 2012


em Sol menor

Falas-me dessa paisagem com carinho,
eu escuto-te calado e atento
ao mover dos teus lábios a cada sílaba
emanada pela doçura da tua boca
e viajo por esse campo
os meus passos são dados com a convicção
de quem mergulha num amor profundo.

Respiro o perfume do mar
enquanto os meus lábio beijam o teu corpo
escrevo estes versos sem forma
como um modernista
uma pessoa fora de tempo
emergido noutra época
bebo-te ainda assim
as tuas pernas, a tua face
o teu sexo
tudo tem um sabor suave e
agradável.
Deleito-me com esse sabor
o sabor das papoulas na
primavera e de tulipas
alcoolizadas. Bebo e bebo mais
sem parar para respirar
é o êxtase 
bebo-te
consumo-te.

A chuva no vidro
é a última impressão da casa
a madeira fresca
junto da floresta
o vinho em Setembro
e o mel em Abril,
doces recordações de paisagens.

Covilhã - 2010


A morte de Buñuel

Brincava comigo todos os finais de tarde sempre a sorrir ténuemente, com uma certa malvadez que lhe enchia o rosto de uma beleza quase poética transcendente a tudo o que vira jámais.
Matei-o ontem e ali ficou, estendido no chão, imóvel e lúgubre, sujo da poeira levantada com a sua queda ridícula, lenta e despreocupada. Caía morto, jazia ali como pedras acentes em sólidos solos seculares que nunca foram pisados, livres da poluição que são os humanos. Assim estava ele empoeirado no seu casaco preto acompanhado por uma camisa branca e também uns pequenos calções pretos.
Não senti nada, o fumo ainda se desprendia da arma, o cano certamente ainda tinha o calor típico de quem retira uma vida, trespassa a pele e o sangue, os orgãos, a alma, tudo perturbado por esse elemento terríficante vindo do exterior, daquele cano fálico ainda quente do prazer, do som que libertou o estalar da pólvora. Chegavam as primeiras pessoas alarmadas pelo barulho dos dois tiros disparados, e eu mantinha-me sentado, confortávelmente ainda a observá-lo morto, e com um certo alívio, de brincadeiras cessadas. De facto o meu corpo era tomado por uma certa paz, a respiração era tranquila, apesar do bater intenso do coração, e os olhos ao contemplá-lo, uma vida perdida, o ser que não é mais, que se transcende. sem choro, imóvel e inútil no chão, impregnado de pó bem visível  nas roupas escuras.
Fui capturado e acusado, disseram-me que seria executado por tal acto repugnante, e eu calmamente sem dizer um palavra concordei, como se pudesse simplesmente reclinar ou decidir, sentia-me bem, como um sultão oriental que manda os seus súbditos enfurcá-lo.
Fui colocado no sítio que entendiam devido, uma corda confortável foi apertada no meu pescoço, e um alçapão aberto.
Senti o ar ir-se, um forte aperto na faringe, e chorei. Tinha saudades dele, das suas brincadeiras, dos seus calções e casaco pretos, a camisa branca e os sapatos castanhos metidos numas meias brancas também, tinha saudades dele, embora não soubesse bem o significado dessa palavra, mas já ouvira várias pessoas proferirem-na. Meu filho, como jazias tranquilo defronte do teu pai assassino, tu branco e espumando sangue da tua doce boca, cagado de pó devido à queda, mudo e imóvel, e eu aqui, como tu e sem ar, só dôr e mágua de nos ter morto.

Évora - 2012

Paysage

Rosas e cercas pontiagudas são o rosto que embalam num doce momento de ternura ao acordar e permanecem  trespassadas por uma guerra subtil ocorrida trinta anos antes. O horizonte  desperta o abrigo de girassóis queimados, mãos ásperas e peúgas velhas são putas à frente do cemitério fodendo o tempo e os velhos jornais pisados, atracam âncoras no campo minado e vacas ruminam em telhados Irlandeses como chimpanzés de rabo inchado a foder mulheres pobres e com roupa rasgada electricamente ligadas a agulhas usadas. Pelas ruas lê-se Rimbaud, o poeta, mas todos desconhecem o que aconteceu com o movimento liberal que fora anunciado anos antes, já ninguém se importava grandemente com o protocolo nem com leis, agora apenas o sexo sobrevive em becos e esquinas, na cidade onde o jazz navegava ao lado do perfume, doce constelação utópica.


4\VII \11 (Covilhã) - 2I\IX\11 (Évora)
Nelson Luís Ribeiro

A sombra nocturna

Diria eu que as aves migratórias
voam na Primavera para os recantos íntimos
da memória onde a noite se transfigura de passo
a passo As memórias apagam-se
dando lugar a sonhos inauditos que se consomem
numa leve baforada de cigarro enquanto que a mão
acaricia levemente as pernas macias da mulher despida

As pessoas viajam pelos caminhos subterrâneos
seguem o seu caminhos cabisbaixo
Não se apercebem da nudez geral
nem dos pressentimentos da carne fria que
abutres empalecidos hão-de reclamar
no leve movimento das suas ásperas
penas
A lua mantém-se imóvel e o canto
do corvo é agora a ténue variação da realidade
que possuímos.

Mocidade vencida nos tempos
em que guerrilheiros cantavam García LLorca
para as suas sereias os
Argonautas passeiam por aqui
convencidos do do seu amor
barcos celestiais pairam nos portos aéreos
deixando que as plumas dos seus
sonhos
se evadam pela população excitada.

Chamavam-me duende em jovem
e não ouviam os meus protestos
contra a aragem das tardes de Invernos
nos cais repletos de patos adormecidos

Hoje estou á deriva nos pesadelos mais
obscuros e o lodo gelado ata-me os pés
enegrecidos pelas doenças milenares
As mulheres há muito que partiram
para uma terra inóspita e os cães
ladram em vão

O mar é agora um grito profundo
que me ataca irremediavelmente
e a sua atrocidade é para mim
o mais belo momento de paixão
e amor eterno.

Covilhã
Nelson Luís Ribeiro