sexta-feira, 7 de junho de 2013


Mar

Vejo os nossos projectos esquecidos.
O pó circunscreve-os e
nós parados em tascas a
beber vinho tinto barato
(um cartuxinho)
enquanto a chuva limpa
o sangue das ruas e
os barcos cadavéricos
se alimentam das ervas
secas de Outono.

Entre a sujidade dos copos
um corpo queda-se.
Gibraltar ficou para trás
há dias, e o mar
permanece frio e negro,
é um corvo que me fita
entre a floresta alta
e lúgubre
dilacerando o cadáver,
astuto, altivo,
negro azedume.

Não sei o que me diagnosticaram,
sei apenas que estou preso em casa
esse espaço mítico onde os sonhos
habitam paredes-meias com o sexo
resplandecente da madrugada.
Morrerei em breve,
de mim nada restará,
nem uma leve brisa
mergulhada nas encostas sombrias
das serras, estarei no vinho
e em ti
no sexo e no mundo
preso por versos
inacabados.

Évora, 4\XI\11

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