quinta-feira, 6 de junho de 2013


A morte de Buñuel

Brincava comigo todos os finais de tarde sempre a sorrir ténuemente, com uma certa malvadez que lhe enchia o rosto de uma beleza quase poética transcendente a tudo o que vira jámais.
Matei-o ontem e ali ficou, estendido no chão, imóvel e lúgubre, sujo da poeira levantada com a sua queda ridícula, lenta e despreocupada. Caía morto, jazia ali como pedras acentes em sólidos solos seculares que nunca foram pisados, livres da poluição que são os humanos. Assim estava ele empoeirado no seu casaco preto acompanhado por uma camisa branca e também uns pequenos calções pretos.
Não senti nada, o fumo ainda se desprendia da arma, o cano certamente ainda tinha o calor típico de quem retira uma vida, trespassa a pele e o sangue, os orgãos, a alma, tudo perturbado por esse elemento terríficante vindo do exterior, daquele cano fálico ainda quente do prazer, do som que libertou o estalar da pólvora. Chegavam as primeiras pessoas alarmadas pelo barulho dos dois tiros disparados, e eu mantinha-me sentado, confortávelmente ainda a observá-lo morto, e com um certo alívio, de brincadeiras cessadas. De facto o meu corpo era tomado por uma certa paz, a respiração era tranquila, apesar do bater intenso do coração, e os olhos ao contemplá-lo, uma vida perdida, o ser que não é mais, que se transcende. sem choro, imóvel e inútil no chão, impregnado de pó bem visível  nas roupas escuras.
Fui capturado e acusado, disseram-me que seria executado por tal acto repugnante, e eu calmamente sem dizer um palavra concordei, como se pudesse simplesmente reclinar ou decidir, sentia-me bem, como um sultão oriental que manda os seus súbditos enfurcá-lo.
Fui colocado no sítio que entendiam devido, uma corda confortável foi apertada no meu pescoço, e um alçapão aberto.
Senti o ar ir-se, um forte aperto na faringe, e chorei. Tinha saudades dele, das suas brincadeiras, dos seus calções e casaco pretos, a camisa branca e os sapatos castanhos metidos numas meias brancas também, tinha saudades dele, embora não soubesse bem o significado dessa palavra, mas já ouvira várias pessoas proferirem-na. Meu filho, como jazias tranquilo defronte do teu pai assassino, tu branco e espumando sangue da tua doce boca, cagado de pó devido à queda, mudo e imóvel, e eu aqui, como tu e sem ar, só dôr e mágua de nos ter morto.

Évora - 2012

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